Sexta-feira, 16 de Abril de 2021

O LIVRO B DO CARVALHAL

Na verdade, tamanho arrojo havia de ser pago muito caro. Não tardou que o Carvalhal do Povo, que tão generosa e solidariamente havia sido dividido por todos ,se tornasse na quase totalidade propriedade de alguns, de muito poucos, que se apropriaram por diversas maneiras das glebas que a todos pertenciam. É claro que a divisão do Carvalhal em 1921 não agradou a todos. Os que mais possibilidades tinham em arrematar os pastos e matos do baldio perderam então um uso que muito contribuía para o seu enriquecimento. Vivia-se na I República, sistema político que beneficiava sistemas de compensações aos mais desfavorecidos ,que tomando medidas populares punha em execução as doutrinas políticas por que se regia. As classes dominantes encontravam-se num sistema defensivo e ,apesar de serem os grandes proprietários agrícolas que davam trabalho aos homens, as mudanças não lhes agradaram. Havia nesta terra apenas 3 casas agrícolas que davam trabalho ,trabalho mal pago e de quase escravatura. Aparecia ,também, uma pequena classe de comerciantes e pequenos proprietários a quem estas novidades agradavam. Note-se que passa a ser conhecido nesta freguesia uma nova figura política denominada delegado republicano ,que tinha por missão difundir e defender as ideias republicanas de liberdade , igualdade e fraternidade. Cientes de toda esta situação se encontravam o Presidente da Junta e os seus membros que ,note-se bem, na deliberação constante na acta de 3 de ABRIL DE 1921,na condição nº 8 não determinam depois de quanto tempo poderiam ser vendidas as leiras. Transcreve-se o referido ponto : “8º - as glebas só poderão ser vendidas depois de decorridos ----- anos e depois de estarem arborizadas “. É fácil verificar que no lugar onde deveria constar o número de anos se encontra um traço. Não terá sido por esquecimento mas ,é elementar ,foi um acto de prevenção contra a cobiça e o domínio dos mais poderosos adversários da partilha do Carvalhal. Temendo, ainda , uma reviravolta não pensada a Junta toma mais cautelas. Leia-se a condição nº9 da referida Acta : “ 9º - As glebas não poderão ser vendidas sem autorização da Junta de Freguesia “ . Seguindo sempre a ideia original, a Junta de Freguesia continuou a aforar glebas e terrenos para construção . Manuel Nunes sai da presidência da Junta ,mas o seu sucessor , Francisco Venâncio, continua a política de entrega de glebas e terrenos. Tudo isto vai contribuindo para o descontentamento dos mais poderosos. Move-se , entretanto , por via subterrânea e ao invés do regulamento a retoma do Carvalhal. Havia grandes necessidades por parte das famílias, tinha –se saído da guerra mundial que deixara tudo em péssimo estado, e havia acontecido há muito pouco tempo essa terrível peste que levaria à morte uma grande quantidade de habitantes desta freguesia . Havia pouco trabalho e as famílias contraíram dívidas para se sustentar ou tratar a saúde dos seus membros. O vício alcoólico dominava os homens sem trabalho e com famílias numerosas e esfomeadas. Por tudo isto se recorria a empréstimos junto de quem tinha dinheiro e a quem eram entregues como penhora as leiras do Carvalhal. Apertados por prazos muito curtos e pressionados entregavam as suas leiras para pagamento das dívidas. Ou ,como então acontecia , carregados de dívidas nas vendas e na taberna trocavam debaixo de enganos as leiras por copos de vinho - sempre se disse que o Bailarico,dono de uma taberna, fez assim a sua fortuna . A Junta de Freguesia cedo se apercebeu destas coisas e é fácil encontrar no Livro de Actas a menção da emissão de títulos de dívida de alguns habitantes desta freguesia. De volta à presidência da Junta , Manuel Nunes insiste na política de entrega de terrenos para construção a Norte da estrada. Adensavam- se nuvens no horizonte de Portugal em 1926, e ao mesmo tempo apressava-se o fim da política em favor do povo. Rebentara o golpe militar de 28 de Maio e a partir daqui começaria o calvário do Carvalhal e do Presidente Manuel Nunes. Destituída a Junta de Freguesia, que desde a implantação da República sempre havia sido eleita por voto popular, é nomeada uma Comissão Administrativa que vai impor uma situação completamente diferente. Não estavam contentes ,apesar de nesta altura já serem donos da grande maioria das glebas.

publicado por valverdinho às 14:50
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