Terça-feira, 4 de Maio de 2021

O Livro B - 5

CAPÍTULO FINAL Acreditando eu que a história de uma terra é feita pelo seu povo, pelo seu colectivo, sou levado ,também, a constatar que há ,por vezes, personagens que se destacam ,que marcam a sua época e se distinguem com as suas atitudes. Volvidos tempos ,e ,depois de uma cuidadosa releitura do Livro de Actas B da Junta de Freguesia, verifico que há duas personagens que se destacam ,de modo contraditório, em toda esta pequena história do Carvalhal : Manuel Nunes , Presidente da Junta de Freguesia, e Pe Ramalho, Pároco , Presidente da Comissão do Culto e Presidente nomeado da Comissão Administrativa. Ambos representarão o antagonismo entre a ordem civil legal e o poder eclesiástico sobre o que sempre tem vindo a ser o principal ponto de discórdia : a posse dos terrenos do Carvalhal. Serão eles os representantes mais visíveis de uma espécie de luta de classes que se travou tendo por fundo a posse do Carvalhal do Povo ? Concedo que são dois homens de forte personalidade, opostos no pensar e no agir ,que marcaram fortemente as suas intervenções de forma ideológica e política. Manuel Nunes ,homem de algumas posses ,republicano assumido,aproveita ideologicamente a oportunidade para transformar um terreno baldio numa acção de partilha por todos os moradores. Transforma uma quantidade de desprotegidos em proprietários ,dá-lhes terrenos para fazerem as suas casas, indica o caminho a seguir para o aproveitamento do Carvalhal e traça-lhes ,sem quaisquer dúvidas , o caminho do futuro. O Pe Ramalho, homem religioso ,adversário da República , contestatário da divisão do Carvalhal ,ideologicamente oposto ao Presidente da Junta , de um pragmatismo extremo que não revela hesitações ao ocupar-se de vários lugares para levar os seus fins até à conclusão . O choque entre estes dois homens foi forte, porque ambos eram fortes personalidades e atingiam fins bem determinados . Manuel Nunes decide fazer a divisão do baldio, entregá-lo ao povo e traçar-lhe o futuro. Assume-o. Com frontalidade desenvolve a sua política e é com honorabilidade que assume por escrito a discordância com o Pe Ramalho quanto á posse dos terrenos a norte da estrada . Atitude arrojada que lhe vai custar caro . Chegado ao poder pelo golpe militar de 28 de Maio o Pe Ramalho vai começar imediatamente a vingança sobre a personalidade que se lhe opunha. Em várias actas tenta lançar a desonra e o vilipêndio sobre Manuel Nunes. Acusa-o de se ter beneficiado com os terrenos do carvalhal , de proteger a sua família ,de ter rasurado e falsificado as actas da Junta de Freguesia em proveito próprio . Persegue o objectivo único de subjugar e vencer o Presidente Manuel Nunes. Socorre-se do poder político instaurado com o golpe militar para combater aquilo de que sempre fora adversário : da República e do Carvalhal do Povo . Politicamente dedica-se a desfazer a imagem de honradez do seu adversário. Tenta processá-lo judicialmente e declarar ilegais todas as deliberações da Junta de Freguesia . Escreve que a divisão do Carvalhal foi um autêntico roubo feito aos pobres da freguesia . Manda sem demoras arrancar os marcos do Carvalhal . Tenta por todos os meios fazer regredir o Carvalhal à situação de indefinição ,o que não consegue ,mas vai quebrar o desenvolvimento, como é reconhecido em 1937 pelo então Presidente da Junta que toma medidas totalmente diferentes das tomadas pelo Pe Ramalho ,valendo-lhe esta sua coragem a presidência da Junta por apenas 1 ano. Manuel Nunes terá sido exemplar no exercício do seu cargo ? Constato que ninguém será perfeito . A sua obra foi de relevante importância para a freguesia, e a sua passagem pela Presidência da Junta de Freguesia foi a mola de impulsão que esta terra precisava para se erguer à posição de destaque no concelho que agora ostenta . Não terá sido um santo ou mártir. Assumiu com toda a dignidade a sua ideologia ,praticou-a em favor de todos e ,por isso ,acabaria por sofrer rudes golpes na sua vida pública e privada. Não terá sido tudo bem feito, claro que não . Mas o seu interesse pelos seus conterrâneos foi sincero. Teria cometido um grande erro se tivesse trazido para o Carvalhal a Capela de São Domingos. Agora ,à distância do tempo, dizemos nós que teria sido um grave erro. Privar-nos-ia de hoje podermos desfrutar de tão singular festa e de tão aprazível local. A sua maior decisão dá-lhe um caracter de homem amigo da sua terra, das suas gentes e de homem de futuro. Esta coroa de glória é- lhe reconhecida e merecida . O Pe Ramalho era ,também , um homem frontal que exibiu pragmaticamente a sua origem familiar e religiosa, defendeu a sua ideologia e combateu denodadamente os seus adversários pessoais e políticos. Da intervenção destes dois homens resulta o Carvalhal da 1ª metade do Sec, XX. Terá sido uma luta simples entre bons e maus ? Foi apenas uma contenda entre dois homens totalmente diferentes, mas ,ambos, imbuídos de fortes convicções . Vai o Carvalhal manter-se esquecido e ignorado durante muito tempo e apenas no último quarteirão do passado século vai conhecer o desenvolvimento merecido. Procede-se ao arranjo urbanístico, distribui-se água ao domicílio e electrificação pública ,faz-se o saneamento básico, a pavimentação das ruas ,tratando-se em igualdade com a sede da freguesia. Mais uma vez o Carvalhal vai ser objecto político de uma revolução.O 25 de Abril de 1974 traz o Poder Local e este vai interessar-se pelo Carvalhal ,dá-lhe dignidade ,valoriza-o e reconhece-lhe identidade . Orgulha-se dele e promove a sua gente e o seu exemplo. Curiosamente ,o Carvalhal estará ligado às evoluções político-sociais do século tendo sido objecto de avanços e recuos conformes aos desígnios das diferentes ideias políticas e sociais . Estará ,por fim ,o Carvalhal em rota segura ? A dar crédito aos últimos acontecimentos quem poderá futurar? O Carvalhal estaria fadado para ser diferente. Que teria acontecido se a proposta de Boaventura Almeida tivesse tido bom encaminhamento e ali se tivesse instalado o campo de aviação ?

publicado por valverdinho às 19:01
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