As janeiras, que este ano se voltaram a ouvir nesta terra,terão origem nas festas romanas das calendas que se celebravam em Roma no mês de Janeiro.
A Igreja católica afeiçoou estes traços pagãos cristianizando os costumes e as celebrações de acordo com a religiosidade dos tempos.
Assim, se cantam as janeiras ,na generalidade, entre o nascimento do Menino Jesus e o dia de Reis.
Socorro-me ,a partir de agora, de pequenos textos retirados do livro Ao redor do Fundão, de José Monteiro,para mostrar como eram as janeiras nos primórdios do século passado.
Rapazes e raparigas em grupos mais ou menos numerosos –por vezes homens de certa idade e condição social – saem,noite fechada ,a cantar as janeiras à porta das casas principais.Feitos os ensaios e demais preparativos com antecipação bastante , se não na própria noite de natal à roda do cepo ou madeiro ,todos se concertando à volta do de melhor voz que regra a música e dá o primeiro verso de cada cantiga.Por vezes cantam-se as janeiras com acompanhamento de instrumentos musicais : tambores,violas,ferrinhos,acordeão, etc.
“Em Valverde ,nas noites de Natal e Ano Bom,os quatros foliões do Espírito Santo ,acompanhados dos seis mordomos e do juiz ,tesoureiro e escrivão da mordomia ,saem a dar as janeiras com seus instrumentos e loas de tradição.Dentre os foliões o do tambor ,que é o principal ,regula a música e nota baixinho,o primeiro verso de cada cantiga.Toca o segundo viola e os dois restantes ,pandeiros – espécie de acinchos de castanho com soalhas de lata.
Dirigem-se primeiro a casa do juiz e, sucessivamente, à do tesoureiro,escrivão e mordomos.E todos em coro:
Vamos dar as boas-festas,
Festas com muita alegria,
Manda-as Dâs do céu à terra
E a Virzem Santa Maria.
As Janëras que cantemos
Amanhei s’hão-de tirare,
São pró Dvino Spirto Santo,
Que Ele mos há-de salvare.
Sobem em seguida as escaleiras do balcão e franqueia-se-lhes a casa,onde já os esperam as janeiras: filhós, papas, chouriças,morcelas,frutas e queijo.Cresce o entusiasmo ao redor da vasta mesa de jantar,onde tem lugar de realce o apetecido vinho-novo.Mas não há tempo para delongas, que importa correr as oito casas restantes – e vá de prosseguir nas romagem.
No dia de Bom Ano saem oficialmente pelo povo a tirar as janeiras ,depois da missa do dia.À frente ,o juiz ,o tesoureiro e o escrivão com bandejas para esmolas de dinheiro, e os seis mordomos com sacos para recolher «somente» e outros géneros.A seguir o Alferes com a bandeira e no couce os foliões ,tocando e cantando loas.Estas esmolas acumulavam-se depois às do «oitavário» ,colhidas durante os oito domingos da Ressurreição para as festas do Espírito Santo.” (sic).
Fala-se aqui da Folia do Espírito Santo e da sua composição. Voltaremos um dia destes a este tema (Folia) com o depoimento directo que recolhi de um dos últimos membros ,o tio Manuel Abrantes / Chona.