As festas correm sempre com o brilho normal.Mas,uma das coisas que mais me impressiona é que a outra parte,a religiosa,se encontra cada vez mais ofuscada.Começa pelos cartazes: a festa é publicitada como sendo em honra de um santo.A sua fotografia é apenas minúscula e colocada num cantinho.Ao contrário a fotografia de um qualque cantor ou animador de baile é fixada em grande escala e o seus nomes escritos em parangonas.Isto não é crítica;é,apenas,uma constatação fácil em qualquer dos programas de todas as festas deste concelho que se encontram afixados nos mais variados lugares. É certo que as festas são feitas para divertir as pessoas e darem lucros.Aceito e reconheço o esforço de quem as promove.Mas,o que mais me impressiona é que a parte religiosa que faz parte intrínseca da nossa cultura .que é uma espécie de catálogo de identificação da nossa vivência,está desprezada por todos nós.Repito : todos nós.Sei que somos livres de acreditar em religiões ,ter fé ou não,pensar que recebemos ou não favores de um santos ou de uma outra entidade não tangível. Sei,também, que se não respeitarmos a nossa cultura ,a nossa vivência colectiva,estamos não só a defraudar a nossa história como estamos a construir um futuro que facilmente desabará.As festas eram grandes momentos de vivência colectiva a ponto de as pessoas oferecerem o que muitas vezes lhes fazia falta.Dar era importante,mesmo que a dádiva fosse pequena.Dar amizade e alegria era o mais importante das festas.Reconhecer e agradecer uma qualquer benção era um acto de grande humildade e humanismo.Saber dar e saber receber são valores superiores.Por tudo isto dói ver a míngua de gentes que participa nas procissões,a escusa de levar pendões ou carregar os andores.Estamos a tempo de parar e voltar a dar vida aquilo que de melhor há na nossa terra : o orgulho das nossas coisas e dos nossos valores.Estamos a tempo de parar e pensar.Estamos a tempo de colaborar com quem trabalha,mas estamos sobretudo a tempo de fazermos todos a festa na sua totalidade,isto é,com a parte religiosa e a parte do divertimento.Seremos já tão egoístas,tão imediatos,competitivos,tão instalados que já nem somos capazes de nos juntar e celebrar os nossos valores que cimentam a nossa vivência em sociedade?