Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2012

ficção

Sua Excelencia levantou-se cedo.Tinha uma viagem marcada para o interior.E de comboio.Sim , de comboio para poupar!Olhou-se ao espelho,esfregou enérgico os olhos e reparou que já estava a ficar atrasado.Saiu rápido e nem notou que não tinha escanhoado a barba.Ainda se lembrou do que iam pensar as pessoas que o vissem naquele estado,mas não havia nada a fazer – já estava atrasado.Chegou  mesmo sobre a hora de partida a Santa Apolónia.

Esperava-o o seu dedicado secretário.Um rapaz alto,bem barbeado,de cabelo muito curto,vestido integralmente de preto e com a sua habitual pasta na mão direita.

Este já havia comprado os bilhetes para ambos.Quanto custaram ? –perguntou S. Excelência. Dezoito euros cada,respondeu. Uma roubalheira,comentou S. Ex.

Embarcados à pressa tentaram aconchegar-se nos lugares que acharam por convenientes.A viagem ia ser longa e o comboio ia parando maçadoramente em muitas estações.Com tanto tempo de viagem foi-se notando a incomodidade dos bancos e S. Ex ia removendo-se no seu lugar.A seu lado,o secretário não ousava dizer nada,limitava-se a responder seca e decisivamente.S.Exa acabou por adormecer.A determinada altura da viagem o secretário pensou acordar S. Exa.Debatia-se com a melhor maneira de o fazer quando S. Exa  abriu os olhos e lhe perguntou se ainda faltava muito para chegar.Aqui o secretário aproveitou e clamou pela atenção de S. Exa para a paisagem.O comboio deslocava-se agora com o Tejo à vista.Bestial !Não sabia que havia coisa tão bonita para estes lugares,comentou S, Exa .E voltou a adormecer sem notar que outros passageiros iam entrando.

Ao passar o túnel da Gardunha o dedicado secretário acordou S. Exa,estavam quase a chegar e S. Exa precisava preparar-se.Perguntou ao acordado secretário – mas o que é que nós viemos fazer aqui neste tão longínquo lugar ? O dedicado secretário abriu a pasta,tirou umas folhas e leu-as pausadamente, não fosse S. Exa ficar aborrecido.Mais uns minutos e anuncia-se a chegada. Por fim o comboio para com aquela chiadeira habitual.

- Chegámos S. Exa. O dedicado secretário ia abrir a porta do comboio quando viu que não havia ninguém a esperá-los.Ficou estarrecido,mas nada disse.S. Exa empertigou-se,cofiou o bigode,passou as mãos pelas barbas não desfeitas  e puxando o casaco pelas abas disse ao secretário : -Vamos.                                                                                       Desceu sobre a plataforma  e reparou que não o esperavam.O que aconteceu é que o edil local o esperava na primeira carruagem e ficara tão surpreendido por não o poder receber como S. Exa ficara surpreendido por falta de receção.Aconteceu que S. Exa embarcou na ultima carruagem por ter chegado tarde a Santa Apolónia,mas logo que foi detetada S. Exa no cais a corte do edil local deslocou-se loucamente ao seu encontro.Aplausos e mais aplausos foi o que se ouviu;foram dispensados os foguetes devido à situação do país.

Cá fora, no largo estava disposta a Banda Filarmónica que iria receber S. Exa de forma a encobrir os buracos. Um dedicado criado municipal diz ao maestro que S. Exa acaba de chegar e pergunta-lhe o que vai tocar. - A Maria da Fonte senhor,como é habitual quando vimos tocar ao Fundão,respondeu o maestro.Atarantado o municipal disse : - Isso não ,que as pessoas podem começar a cantar.Toque uma daquelas marchas das procissões.

Assim foi.Depois dos múltiplos cumprimentos e das variadas apresentações S. Exa apresenta-se ao público rodeado de celebridades locais.

Embarcaram todos no urbano municipal,para poupar, em direcção aos subúrbios concelhios.S. Exa iria ver com seus olhos para que não pudessem enganar.Trazia na bolsa um cheque – pequeno por que os anteriores estragaram tudo – e no meio da viagem foi avisado dos pequenos perigos por que se dirigiam a uma terra hostil.Pensou S. Exa que se referiam à estreiteza e às muitas curvas da estrada.

Chegados, recebidos pelos gerentes locais,olhou,viu a obra e disse : Muito bem ! Muito bem !

Convidaram-no a entrar :Que não valia a pena, Que já vira e que estava tudo muito bem,dizia S. Exa.Por causa da insistência acabou por entrar.Tudo viu ,ouvia e ia sempre respondendo – Que sim!. Que sim !

Era preciso andar depressa  e a corte municipal lá subiu para o urbano em direção a outra localidade. E S. Exa pensou : mais curvas ,mais estradas estreitas e mais gente a falar de tudo e de nada.

Outros discursos ,outras palmas,outras e as mesmas pessoas.Pometeu,sempre se promete quando se quer alcançar uma graça ,nem que seja ao S. André de barro.Notava ,entretanto,que o estomago começava a dar horas e que era hora do almoço.

Empanturrou-se de cozinha tradicional e de barriga cheia lá foi dizendo : Muito bem ! Muito bem ! E,como antes,tudo viu,tudo ouviu e sempre ia respondendo –Que sim!.Que sim !

 Entardecia . Era preciso voltar à capital e ainda faltavam longas horas de comboio.Embarcou de novo ,agora na primeira carruagem,e quando chegou ao Alcaide,exausto encostou-se ao  ombro do seu dedicado secretário e adormeceu,tal qual uma criança encontra recato no colo da sua mãe.

Dormiu que nem justo obrigando o dedicado secretário a viajar desconfortavelmente hirto.

Chegados. O dedicado secretário atreve-se a perguntar a S. Exa se se lembrava do que havia prometido naquele fim de mundo.

- Que nada ! Que nada ! Nada prometi.

*ficção

** Utilizado o Novo Acordo Ortográfico

publicado por valverdinho às 19:58
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1 comentário:
De Jorge Craveiro a 10 de Janeiro de 2012 às 15:32
Boa critica,quem quer enteder que enteda... :)


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