Apesar da ficção parece que acertei na maior parte dos acontecimentos.S. Exa não veio de comboio(pudera)mas em excelentes bombas (Bms,Audis e Mecedes eram alguns).Sempre trouxe o cheque.Melhor :vai desbloquear a verba e mandar uma centena de milhar de euros(mande mais que a obra merece).
Sua Excelencia levantou-se cedo.Tinha uma viagem marcada para o interior.E de comboio.Sim , de comboio para poupar!Olhou-se ao espelho,esfregou enérgico os olhos e reparou que já estava a ficar atrasado.Saiu rápido e nem notou que não tinha escanhoado a barba.Ainda se lembrou do que iam pensar as pessoas que o vissem naquele estado,mas não havia nada a fazer – já estava atrasado.Chegou mesmo sobre a hora de partida a Santa Apolónia.
Esperava-o o seu dedicado secretário.Um rapaz alto,bem barbeado,de cabelo muito curto,vestido integralmente de preto e com a sua habitual pasta na mão direita.
Este já havia comprado os bilhetes para ambos.Quanto custaram ? –perguntou S. Excelência. Dezoito euros cada,respondeu. Uma roubalheira,comentou S. Ex.
Embarcados à pressa tentaram aconchegar-se nos lugares que acharam por convenientes.A viagem ia ser longa e o comboio ia parando maçadoramente em muitas estações.Com tanto tempo de viagem foi-se notando a incomodidade dos bancos e S. Ex ia removendo-se no seu lugar.A seu lado,o secretário não ousava dizer nada,limitava-se a responder seca e decisivamente.S.Exa acabou por adormecer.A determinada altura da viagem o secretário pensou acordar S. Exa.Debatia-se com a melhor maneira de o fazer quando S. Exa abriu os olhos e lhe perguntou se ainda faltava muito para chegar.Aqui o secretário aproveitou e clamou pela atenção de S. Exa para a paisagem.O comboio deslocava-se agora com o Tejo à vista.Bestial !Não sabia que havia coisa tão bonita para estes lugares,comentou S, Exa .E voltou a adormecer sem notar que outros passageiros iam entrando.
Ao passar o túnel da Gardunha o dedicado secretário acordou S. Exa,estavam quase a chegar e S. Exa precisava preparar-se.Perguntou ao acordado secretário – mas o que é que nós viemos fazer aqui neste tão longínquo lugar ? O dedicado secretário abriu a pasta,tirou umas folhas e leu-as pausadamente, não fosse S. Exa ficar aborrecido.Mais uns minutos e anuncia-se a chegada. Por fim o comboio para com aquela chiadeira habitual.
- Chegámos S. Exa. O dedicado secretário ia abrir a porta do comboio quando viu que não havia ninguém a esperá-los.Ficou estarrecido,mas nada disse.S. Exa empertigou-se,cofiou o bigode,passou as mãos pelas barbas não desfeitas e puxando o casaco pelas abas disse ao secretário : -Vamos.
Cá fora, no largo estava disposta a Banda Filarmónica que iria receber S. Exa de forma a encobrir os buracos. Um dedicado criado municipal diz ao maestro que S. Exa acaba de chegar e pergunta-lhe o que vai tocar. - A Maria da Fonte senhor,como é habitual quando vimos tocar ao Fundão,respondeu o maestro.Atarantado o municipal disse : - Isso não ,que as pessoas podem começar a cantar.Toque uma daquelas marchas das procissões.
Assim foi.Depois dos múltiplos cumprimentos e das variadas apresentações S. Exa apresenta-se ao público rodeado de celebridades locais.
Embarcaram todos no urbano municipal,para poupar, em direcção aos subúrbios concelhios.S. Exa iria ver com seus olhos para que não pudessem enganar.Trazia na bolsa um cheque – pequeno por que os anteriores estragaram tudo – e no meio da viagem foi avisado dos pequenos perigos por que se dirigiam a uma terra hostil.Pensou S. Exa que se referiam à estreiteza e às muitas curvas da estrada.
Chegados, recebidos pelos gerentes locais,olhou,viu a obra e disse : Muito bem ! Muito bem !
Convidaram-no a entrar :Que não valia a pena, Que já vira e que estava tudo muito bem,dizia S. Exa.Por causa da insistência acabou por entrar.Tudo viu ,ouvia e ia sempre respondendo – Que sim!. Que sim !
Era preciso andar depressa e a corte municipal lá subiu para o urbano em direção a outra localidade. E S. Exa pensou : mais curvas ,mais estradas estreitas e mais gente a falar de tudo e de nada.
Outros discursos ,outras palmas,outras e as mesmas pessoas.Pometeu,sempre se promete quando se quer alcançar uma graça ,nem que seja ao S. André de barro.Notava ,entretanto,que o estomago começava a dar horas e que era hora do almoço.
Empanturrou-se de cozinha tradicional e de barriga cheia lá foi dizendo : Muito bem ! Muito bem ! E,como antes,tudo viu,tudo ouviu e sempre ia respondendo –Que sim!.Que sim !
Entardecia . Era preciso voltar à capital e ainda faltavam longas horas de comboio.Embarcou de novo ,agora na primeira carruagem,e quando chegou ao Alcaide,exausto encostou-se ao ombro do seu dedicado secretário e adormeceu,tal qual uma criança encontra recato no colo da sua mãe.
Dormiu que nem justo obrigando o dedicado secretário a viajar desconfortavelmente hirto.
Chegados. O dedicado secretário atreve-se a perguntar a S. Exa se se lembrava do que havia prometido naquele fim de mundo.
- Que nada ! Que nada ! Nada prometi.
*ficção
** Utilizado o Novo Acordo Ortográfico
O Jornal do Fundão da semana passada noticia que o Luís Batista (Moleiro,digo eu) fez um filme que corre mundo,ou melhor,que há muito tempo lhe corria nas veias.Parabéns Luís.Segue o teu sonho !
IGREJA PAROQUIAL – IGREJA DE SÃO MIGUEL
Construção do Século XVIII.
Arquitectura religiosa ,barroca .Igreja de planta longitudinal composta por nave, capela-mor mais baixa e estreita, sacristia e anexo. Volumes definidos por cunhais apilastrados e remate em cornija e beiral. Fachada principal com portal de verga recta ,encimado por janela e remate em empena.
De planta longitudinal, composta por nave,,capela-mor mais baixa e estreita, sacristia e anexo..Em volume isolado ,de disposição vertical, torre sineira .Volumes articulados de disposição na horizontal. Cobertura em telhado de duas águas na nave ,anexo e capela-mor ,e uma água na sacristia. Volumes rebocados e pintados a branco implantados sobre embasamento proeminente. Fachada principal orientada com pilastras de aparelho isódomo coroadas por pináculos .Ao centro portal de duas folhas com bandeira, lintel em arco abatido com pedra de fecho e impostas salientes, coroado por frontão curvo interrompido. Encima o portal, janela gradeada com perfil em arco perfeito. Remate da fachada em beiral e cornija coroada por cruz sobre plinto.
Fachada norte com volumes definidos por pilastras com aparelho isódomo coroadas por pináculos. No volume da nave ,porta de duas folhas e janela de rampa, ambos os vãos com lintéis rectos. Remate da fachada com beiral e cornija.
Fachada oeste cega com 3 panos limitados por pilastras com aparelho isódomo e um cunhal, correspondentes aos volumes da capela-mor, sacristia e anexos .Pilastras que definem a capela-mor coroadas por pináculos. Volume da sacristia e capela-mor rematadas por põe empena angular e cornija, e ,no volume do anexo, remate em beiral e cornija
Fachada sul com dois panos limitados por pilastras com aparelho isódomo correspondentes aos volumes da nave e anexo. Pilastras da nave coroadas por pináculos e as do anexo por plintos.
Volume do anexo com uma janela gradeada com lintel e soleira em arco perfeito.
No volume da nave, porta de duas folhas com lintel em arco abatido coroado por frontão curvo interrompido ,e uma janela gradeada com lintel e soleira em arco perfeito. Remate dos volumes em beiral e cornija na nave e empena angular no anexo.
Volume da torre sineira de planta quadrada ,rebocado ,cunhais em granito com aparelho isódomo coroados por pináculos. Vãos com lintéis em arco perfeito.
No adro situa-se um cruzeiro em granito com a data de 1711.
Construída ,provavelmente, sobre uma outra mais primitiva já referenciada em 1320. * (Nº IPA 0504290052)
No seu interior poderemos ver 3 altares : o altar-mor ,onde pontifica a imagem do padroeiro São Miguel; do lado esquerdo o altar do Sagrado Coração de Jesus ,onde pontifica a imagem da Senhora de Fátima;o do lado direito dedicado à Senhora do Rosário (ou Senhora das Graças),Santa Ana e São José. Este último tem ,sem dúvida ,as imagens mais antigas.
Vejamos o que o Pároco de Valverde escreveu no ponto nº 7 ,em 1758 ,ao responder ao Inquérito sobre os efeitos do terramoto de 1755 nesta freguesia :
“7. O seu orago é São Miguel,o Anjo,e tem a Igreja três altares : o maior com o dito santo e os colaterais ,o da parte do Evangelho com as imagens de Cristo Senhor Nosso crucificado e São Braz,e da parte da epistola a imagem é da Senhora do Rosário e Santa Ana…”**(O concelho do Fundão através da Memorias paroquiais de 1758 de Joaquim Candeias da Silva).
É fácil ainda hoje verificar que estas últimas imagens ainda se mantêm naquele mesmo altar.
Esta Igreja sofreu algumas reparações durante a sua vida,no entanto, a sua traça original tem-se conservado através dos tempos. A sacristia nova acrescentada nos anos 50 do Século XX encaixa-se com toda a naturalidade na traça arquitectónica original ,sabendo que esta sóbria obra foi executada pelos pedreiros de Valverde e a ajuda da população.
É sabido que no seu interior existiu em tempos um passeio em pedra a que se dava o nome de coxia.
No seu interior, e no adro, eram enterrados os valverdenses até que esta prática foi legalmente proibida.
Uma das deliberações da Junta da paróquia tem como destinatários os herdeiros de duas senhoras enterradas junto à porta lateral do lado norte,para que rebaixem as pedras tumulares que fazem com que quando chove a água entre na Igreja.
Instalado na parede do lado sul encontra-se o púlpito ,cuja escadaria se encontra no interior da parede.
A Pia Baptismal é de todas as peças a mais valorosa .Está assente sobre cabeças de animais.*** (Prof. Leite de Vasconcelos -. O arqueólogo Português).
Notável é ,também, o jogo de luzes causado pelas luminosidade cruzadas das duas janelas laterais em conjunção com a outra que se encontra por cima da porta principal.
A Igreja encontra-se agora integrada na zona populacional , mas em 1758 o Pároco diz que “ a Igreja está fora do lugar,porém perto das casas e não tem a freguesia mais lugares que o casco do povo”.**
O cruzeiro tem na sua base a data de 1711 provável termo da construção desta obra arquitectónica.
Há já laguns anos que Carlos Mendes cantou uma canção,cujo poema foi escrito por José Niza,que se chamava A Festa da Vida.Neste tempo de basbaques parece-me apropriado atirar ao vento que há mais vida para além destes tro(i)ca tintas.Aqui fica :
Que venha o sol o vinho as flores
Marés canções todas as cores
Guerras esquecidas por amores;
Que venham já trazendo abraços
Vistam sorrisos de palhaços
Esqueçam tristezas e cansaços;
Que tragam todos os festejos
E ninguém se esqueça de beijos
Que tragam prendas de alegria
E a festa dure até ser dia;
Que não se privem nas despesas
Afastem todas as tristezas
Pão vinho e rosas sobre as mesas;
Que tragam cobertores ou mantas
O vinho escorra pelas gargantas
E a festa dure até às tantas;
Que venham todos de vontade
Sem se lembrarem de saudade
Venham os novos e os velhos
Mas que nenhum me dê conselhos!
* José Niza
Vai por aí um espanto por que se anunciam o fim de algumas freguesias, mais precisamente onze. Mas são sempre os mesmos a ficarem espantados quando as coisas acontecem ou em vésperas dos anúncios. Aparecem agora as carpideiras e os defensores acérrimos das freguesias e dos coitados dos seus habitantes. Lacrimejam e choram baba e ranho ,dizem agora palavras consoladoras e revoltantes ,praguejam contra tudo e todos, juram resistência e vingança. Não querem acordar e presumem que com convites e alcoviteirices ainda podem alterar o destino. O destino que eles próprios traçaram ao descuidar as suas obrigações de dar bem estar , progresso social e económico às populações. Em vez disso foram bajuladores de interesses festeiros e festivaleiros de cavaleiros sem ideias e sem escrúpulos .Fizeram festas e festas ,gastaram a pólvora em foguetes de circunstância e recepções parolas de corte provinciana ignorante.Bajularam e beijaram anéis de senhores temporários vazios de dignidade e descuidaram o trabalho e a dignidade da defesa das suas terras ,por que pretenderam aceder a benesses ou subir na consideração social .Ficaram loucos de espanto com o a acesso fácil aos meios de comunicação que lhes recebiam prosaicas gabarolices.Não cuidaram de respeitar e valorizar a antiguidade e a dignidade das suas terras e das gentes.Como diz o povo : amanharam-se. Vociferam agora;melhora fora que se arrependessem e em gesto de dignidade (serão capazes?) fossem capazes de pedir desculpa.
SÃO MIGUEL
Cada vez que alguém me falava sobre o São Miguel e a sua história ,as pessoas ,quase invariavelmente,terminavam da seguinte forma:
- Não acredita ? Mas olhe que é verdade ! Sempre o ouvi contar.
Tenho tentado chegar a uma situação que me ajude a compreender esta lenda e tentar localizá-la no tempo.Já o ano passado aqui me referi a este assunto e este ano penso juntar mais algumas observações.
Em 1758 respondendo ao Inquérito sobre os efeitos do terramoto de 1755,o Cura de Valverde,Paulo Quaresma Soares,escreve na resposta ao ponto nº 7 o seguinte:
«O seu orago é São Miguel,o Anjo,e tem a Igreja três altares : o mayor com o dito santo e os collateraes ,o da parte do Evangelho com as imagens de Christo Senhor Nosso crucificado e Sam Brás,e da parte da Epistola a imagem da Senhora do Rosário e Sancta Anna…».*
No inventário dos bens da Igreja feito em 20 de Abril de 1837 nada consta sobre imagens.**
No inventário dos bens da Igreja feito em 13 de Outubro de 1858 feito pela Junta da Paróquia,consta o seguinte :«« um altar mor ;dois altares colaterais;uma cruz grande de pau com crucifixo;uma imagem da São Braz;uma imagem de Nossa Senhora do Rosário; uma imagem de Nossa Senhora do Rosário pequena;uma imagem de Santa Ana,uma imagem de Nossa Senhora da Piedade;um Menino Jesus de vestir»».**
Em 1872 a Junta da Paróquia decidiu que a festa do Santíssimo Sacramento era feita em conjunto com a de São Miguel,no dia 27.**
As imagens referidas em 1758 e 1858,um século depois,são praticamente as mesmas,com excepção da falta da imagem de S. Miguel no inventário de 1858,sendo que só 1872 se fala na festa do São Miguel.
Poderá isto querer dizer que depois de 1758 até 1858 ou 1872 a paróquia teria estado sem a imagem do padroeiro e que só mais tarde (1872) teria uma nova imagem para fazer a festa ?
Palavras nunca ditas é um livro de poesia que vai ser lançado no dia 22 de Outubro,pelas 11 horas,na Bilbioteca Municipal Eugénio de Andrade e a sua autora é a nossa conterrânea Maria Vera Roque.Fica o aviso.
so.
Estou de volta após uma paragem tecnica.Aconselho,entretanto,uma visita ao valverdecity por que há boas novidades:parabéns Jorge.A propósito :lá aparece a Igreja que este ano faz 300 anos. Tenho quase pronto um escrito sobre a Igreja que lançarei aqui em breve.
No outro dia que fez trovoada ,lembrei-me de consultar velhos apontamentos e neles descobri a recolha de uma velha oração a Santa Bárbara :
Santa Bárbara se levantou
Seu pé direito calçou
Sua varinha de ouro pegou
Mil léguas caminhou
a Virgem a encontrou :
Santa Bárbara onde vais ?
Vou aplacar a trovoada .
Aplaca-a bem para longe
Onde não haja eira nem beira
Nem folha de figueira
Nem ramo de oliveira
Nem galos a cantar
Nem cães a ladrar….
A partir daqui não tenho mais apontamentos.Sei que há outras orações a Santa Bárbara das quais tenho apenas pequenas coisas.
. ficção
. vejam